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sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Diálogos no Principado da Sé
Hoje, na Sé, três lordes sem castelo dividiam um corotinho de pinga. Foi quando Marks Fabricy passou e registrou essa pérola de diálogo:
-E o Marreta, que oconteceu com ele?
-O Marreta? Parou de beber, agora só tá roubando!
-Só tá roubando é? Então ele tá bem! Porque eu só estou pedindo. Pedindo e bebendo, pedindo e bebendo!
Coisa que os outros dois concordaram com a cabeça e beberam um golão da cachaça nos respectivos copos americanos descartáveis, sem nem ao menos brindar ao amigo ausente.
Oito e trinta da manhã.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
(Conto #68) Anjos mortos não riscam bicicletas
A bicicleta andava no ritmo tenso do seu pedalar. Estava ele incomodado com a vida, com a dor de cabeça, com o latejar de sua vista, com o pulmão pesado do forte tabaco e com o engasgo cíclico de engranagens empenadas e mal lubrificadas da sua bicicleta. Malditos filhos que a pegavam nos dias de sua folga e a levavam para lugares incógnitos unicamente para estragá-la, empoeirar seus mecanismos, riscar a tinta evanescida de sua lataria.
Imagine ele, andando agora na segunda pela manhã, comprimentando o respeitável vizinho e o guarda de trânsito habitual com aquela velha geringonça rangente de ferrugem. Sentimento de ódio e vergonha despontavam. Sabia ser ele o melhor eletricista da repartição, aquele que sempre resolvia os problemas de forma definitiva e não ficava coçando a cabeça e consultando manuais cheios de jargões técnicos e inseticida para traças. Odiava o cheiro de manuais, tanto quanto de pessoas que coçavam a cabeça com um problema. Ele era prático, punha a mão na massa, resolvia. Poucos conheciam seu talento, lamentava ele na bicicleta que falseava o pedal. Súbito, para piorar seu humor, uma batida brusca em um buraco que o fez sentir dores em sua coluna lombar. Praguejou em murmúrios, rangendo seus dentes gastos. "
"O que eu faço da minha vida ninguém tem nada com isso". Admitia para sí que não era o mais assíduo do departamento, que faltava com horários e obrigações, mas logo escutava uma voz interior que o tornava rancoroso e o fazia lembrar de quão idiotas eram os outros, verdadeiros puxa-sacos sanguessugas que nada mais faziam que adular o chefe caxias, que por sinal era outro lambe-botas de seus superiores.
Faltou-lhe fôlego por um instante. Teve que parar por um momento e tossir, espectoração melada e profunda. Mesmo o caminho sendo plano, aquela bicicleta e seu som estridente, o sol já alto, o calor, os pensamentos girando, um tormento, a sede, castigo. O cheiro de corpo emanava do paletó de seu terno, envergonhou-se mais e preocupou-se em chamar a atenção, mas não muito. "Um bom sabão e uma pia dão um jeito nisso, ninguém vai perceber com um pouco de água ensaboada na nuca e axilas."
Quando estava assim, nesse estado deplorável, subia no pequeno quartinho do reservaório da caixa d'água, um lugar que cheirava a cimento e merda de pombos, e, fazendo um travesseiro com restos de sacos de papel, dormia um sono rústico e desolado, típico daqueles que varam noites de jogatina, bebidas, fumo e gargalhadas enebriantes. Apenas um menino, pequeno aprendiz assustado e franzino, sabia de seu paradeiro, e sob pena de represálias atrozes não o dedava, ao contrário servia de vigia e de bode-espiatório para suas escapadas e malandragens.
Era nesse reservatório que estava focado enquanto pedalava sua bicicleta quebrada. Enquanto praguejava as marchas que escapavam sozinhas no câmbio descalibrado, pensou num consolo ingênuo que a distância pra chegar já era pouca. Já via o portão da firma logo ali na frente. Tentou focar sua concentração no exercício, aquela roupa abafada, só precisava dormir por quinze minutos.
Deu uma piscada forte, depois uma outra ainda maior, e foi então que abruptamente sua bicicleta estancou, o que fez com que ficasse alerta num sobressalto. Um homem alto e de constituição sólida, pesando cerca de 120 quilos estava na frente do seu caminho, segurando o guidão da sua bicicleta. O eletricista pôs os pés no chão imediatamente e pensou em praguejar, mas optou por um sorriso amarelo, de desculpas, até mesmo porque precisava entender o que se passava, qual era a situação.
"Amigo, você deve olhar por onde anda, da próxima vez pode se machucar. E tem minha bicicleta, mas não se preocupe acho que não amassou nada..."
O homem tinha uma cara fechada e não parecia querer fazer amigos. Também notou que ele não estava só mas em um bando de brutamentes mal-encarados. Eles formaram um círculo em volta de sua bicicleta, e então o homem que segurava o guidão empurro-o de tal forma que fez com que o eletricista caísse, sujando todo seu terno com lama e poeira. Tentou o pobre traste levantar-se, quando tomou o primeiro tapa em sua orelha que o fez cair novamente sentado. Então vieram pontapés, murros e cotoveladas, e as estrelas começaram a girar sobre sua cabeça. Então alguém jogou um balde de água nele, algo sujo para que não perdesse a consciência, e levandando-o pela lapela, fez com que ficasse suspendido, um dos pés sem sapato, e então o homem, com voz arrastada como se tivesse retendo toda a sua violência entre os dentes declarou:
"Que espécie de escória é você seu doente, estupra a própria filha?", e numa cabeçada certeira em seu nariz apagou.
Então escutou batidas que, cada vez mais fortes pareciam querer lhe arrancar os tímpanos. O rosto coberto de um suor colado daquele que verte do álcool pelos poros, um hálito seco da desidratação da bebida e do chorume oleoso do tabaco, a gengiva dolorida e olhos arenosos que muito se esforçam para se esbugalhar entre as pálpebras inchadas. Reconheceu o meninoaprendiz batendo do lado de fora da parede de latão do reservatório de água:
-Seu Laércio, acorda seu Laércio o sol está alto, o senhor vai cozinhar aí dentro.
-Alguém procurou por mim?
-O capataz seu Laércio, mas ele não está bravo com o senhor, está preocupado. Parece que a polícia está aí na frente, querem te contar que sua filha sumida foi achada num matagal, assassinada. O senhor está bem seu Laércio? Está triste?
- Que, hã, claro moleque, é uma coisa muito ruim o que você está contando. Estou triste sim. Me ajude a descer daqui sem que ninguém veja.
Então torpe e confuso, sujo de rolar no pequeno sono atribulado, desceu as escadas e foi ter com o capataz, que estava com a polícia e com diversos funcionários, operários fortes com ferramentas pesadas em suas mãos.
Então o capataz consternado pela situação apontou o delegado de polícia:
-Laércio, o homem da lei tem coisas para te contar, Genival, traz um trago pro Laércio! Pode ser cachaça?
-Se tiver conhaque eu prefiro seu Benedito.
-Alguém vai lá comprar um conhaque pro Laércio. Esse homem é um lutador e precisa de ajuda aqui.
Então coisas foram esclarecidas pelo delegado, e Laércio mordeu os lábios, tremeu, chorou. Mas se preocupou com uma eventual investigação:
-Estão falando dos ciganos, que montaram um acampamento na saída da cidade.- respondeu o delegado.
-Malditos ciganos! Eu devia imaginar!-disse Laércio, visivelmente transtornado.
-Não se preocupe Laércio, o senhor vai ter justiça. Pessoal, quem vai com a gente no multirão?
Formou-se assim o comitê de linchamento.
Laércio, cansado demais para acompanhar toda aquela agitação enconstou em um canto na sala do capataz e dormiu sentado de roncar. Alguns operários, vendo a piedosa cena se enterneceram do homem que tanto sofria e fizeram um rateio para angariar dinheiro para o velório da criança. Então alguém acordou Laércio, deu-lhe uma xícara de café quente bem forte e anunciou o envelope como o arrecadado.
-Assim a menina vai ter um enterro digno!
Ele tomou um gole do café, suspirou profundo e acenou com um sorriso esforçado. Então pensou:
"e me livro dessa bicicleta velha e compro uma que funcione." Esse pensamento reconfortou-lhe, e para a tranquilidade dos presentes, conseguiu dar um sorriso verdadeiro, sincero, feliz.
Questionador com café
Hoje tomei meu café da manhã fraco, doce, questionador. Fraco e doce eram qualidades do café. Questionador era a de quem o estava bebendo.
A sensação de estar questionando sempre me vem quando sonho com algo esquisito e diferente, aquele tipo de coisa que no sonho parecia ser certa e lógica, mas que quando acordo pareço discordar como se nada fizesse mais sentido.
É como ver algo belo sem os óculos fortes para miopia, e descobrir feiura em seus detalhes quando se coloca o óculos novamente.
Mas nessa minha analogia, ainda não descobri qual é o estado em que se vê tudo focado do jeito certinho, o de vigília ou o de sonho.
Por isso a sensação de questionador ao tomar meu fraco café adocicado nessa manhã.
A sensação de estar questionando sempre me vem quando sonho com algo esquisito e diferente, aquele tipo de coisa que no sonho parecia ser certa e lógica, mas que quando acordo pareço discordar como se nada fizesse mais sentido.
É como ver algo belo sem os óculos fortes para miopia, e descobrir feiura em seus detalhes quando se coloca o óculos novamente.
Mas nessa minha analogia, ainda não descobri qual é o estado em que se vê tudo focado do jeito certinho, o de vigília ou o de sonho.
Por isso a sensação de questionador ao tomar meu fraco café adocicado nessa manhã.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Mais amor, menos reunião
Reunião, conjunto de pessoas, unidas por um fim comum. Aglomerado? Agregado comunitário, sociabilidade, obrigação? Não. Reunião não põe pão. Aqui as coisas vão e vem conforme as ondas que já vinham e voltavam ontem ou a meses atrás.
Nada muda em uma reunião, só amplifica. Mal humor, ansiedade, desespero, desinformação. Alguém denuncia intrigas na reunião. Outro insiste, coage, propina, precisa de asseclas, precisa de participação. Mas para que seu lado mais forte prevaleça suas condições egoístas de impositor.
Imposição, está aí uma boa palavra que sempre rima com reunião. Vamos comunicar novas regras, novas rotinas, novos horários de atendimento, uma nova ordem de demissão.
Em massa, individual, quem sabe, está vindo aí uma nova onda, que a nova ordem é cortar gastos, tudo aqui é alto custo.
O chefe anterior extrapolou, as metas não foram cumpridas, muita coisa que era pra rolar foi pro funil.
Qual esperança, quem falou em confiança, a ordem do dia é desapego, é trabalho gratuito voluntário, é força tarefa pra empenho no sábado.
Quem disse que coisa boa aparece quando um amontoado de gente que tem medo uma das outras se aglomera em um cantão.
Que negócio floresce quando o pior pesadelo é agora o melhor amigo de qualquer pessoa? Um desastre, um cataclismo, Armagedom, mudança de planos, plano b, sem plano algum, o plano agora é montar currículo para mandar mercado afora. Sigilo total, segredo é o mote em qualquer situação.
Ouviu burburinhos, alguém disse algo que parece que é quase certeza, parece que tudo não passa de ilusão, miragem, mágica, alucinação.
Ninguém sabe a extensão do prejuízo, ninguém sabe quem errou primeiro, se veio de cima ou de baixo, se cortaram a cabeça da diretoria ou a pancada é pra quem tem RG número par do setor.
Não adianta, não estressa, respira fundo, olha o coração.
Três pontos de safena ano passado, já bati um carro, arranhei a van de um terceiro, uma não mas três multas, vinte e cinco pontos na carteira, tudo pelo horário, o maldito relógio, razão mor e pai de todos os atrasos. Vamos ser objetivos.
E por falar em objetividade, vou contar uma história muito engraçada. É sobre meu filho, aconteceu na escola, ou então é algum vídeo engraçado que eu vi.
Sim, aquele que vocês também viram, mas vão ter que escutar, afinal sou o chefe, e a vida de vocês me pertencem, pelo menos durante as oito horas seguintes, se não formos contar as horas extras caridosamente doadas e contabilizadas como trabalho voluntário. Como se existisse altruísmo na escravidão. Reunião, conjunto de pessoas, unidas por um fim comum.
Imposição, está aí uma boa palavra que sempre rima com reunião. Vamos comunicar novas regras, novas rotinas, novos horários de atendimento, uma nova ordem de demissão.
Em massa, individual, quem sabe, está vindo aí uma nova onda, que a nova ordem é cortar gastos, tudo aqui é alto custo.
O chefe anterior extrapolou, as metas não foram cumpridas, muita coisa que era pra rolar foi pro funil.
Quem disse que coisa boa aparece quando um amontoado de gente que tem medo uma das outras se aglomera em um cantão.
Que negócio floresce quando o pior pesadelo é agora o melhor amigo de qualquer pessoa? Um desastre, um cataclismo, Armagedom, mudança de planos, plano b, sem plano algum, o plano agora é montar currículo para mandar mercado afora. Sigilo total, segredo é o mote em qualquer situação.
Ouviu burburinhos, alguém disse algo que parece que é quase certeza, parece que tudo não passa de ilusão, miragem, mágica, alucinação.
Não adianta, não estressa, respira fundo, olha o coração.
Três pontos de safena ano passado, já bati um carro, arranhei a van de um terceiro, uma não mas três multas, vinte e cinco pontos na carteira, tudo pelo horário, o maldito relógio, razão mor e pai de todos os atrasos. Vamos ser objetivos.
E por falar em objetividade, vou contar uma história muito engraçada. É sobre meu filho, aconteceu na escola, ou então é algum vídeo engraçado que eu vi.
Sim, aquele que vocês também viram, mas vão ter que escutar, afinal sou o chefe, e a vida de vocês me pertencem, pelo menos durante as oito horas seguintes, se não formos contar as horas extras caridosamente doadas e contabilizadas como trabalho voluntário. Como se existisse altruísmo na escravidão. Reunião, conjunto de pessoas, unidas por um fim comum.
terça-feira, 22 de julho de 2014
Depressão e progresso
sábado, 19 de julho de 2014
Resposta ao poeminha ruim
E caiu,
não foi a maçã
foi a moçoila
que parecia sã
caiu de madura
não pela idade
pois, na verdade
viu oportunidade
queria um braço
e depois de um passo
ganhou um abraço
e evoluiu para um amasso
que pouca vergonha
ali embaixo do pé
um tal de nhola
e furipororiquequé!!!
poeminha ruim mas de boa intenção
de tanto mexer, caiu
o fá viu a cena, correu ajudar
sorriu
A Lili tava caindo
mas nos braços do Fá
ficou
Então se amaram
para sempre
como ninguém que
existiu
E os dois se beijaram
e vermelha a bochecha do fá
ficou
Os dois viraram namorados
e tiveram um final feliz
viu?
João Ubaldo morreu
Quando fiquei sabendo da morte de João Ubaldo, fui correndo descobrir que dia era hoje. Porque precisava marcar o dia em que Itaparica jamais seria a mesma. Que pena para o Brasil, para os leitores da língua portuguesa, para o mundo. Caras legais deveriam ter bônus de permanência.
Só Deus é grande
Deus existe? Deus não existe. Deus existe? Deus não existe.
Por que causa tenho que ficar lutando para chegar à uma conclusão final sobre esse assunto?
Sei que sinto sua presença nas vezes de dúvida, e quando peço que ele apareça sempre sinto que ele me atende.
Me atende ou me obedece, me atende ou me obedece?
Obedecer no sentido de ser sua presença apenas efeito placebo da minha imaginação.
Ou obedecer no sentido de que tradicionalmente parece que Deus tem uma obrigação infinita para conosco, no sentido de que não importa quanto o desprezemos ou contrariemos suas regras, simplesmente voltando atrás e nos arrependendo atende à regra de ouro de torná-lo ao nosso lado novamente.
Lembro-me de alguns momentos que senti ele na minha presença, e foram momentos que chamei-lhe ao meu lado.
Será que é assim simplesmente porque nossa teimosia é ínfima frente à paciência titânica do onipresente?
Ou porque ele mal sabe que nós de fato queríamos maltratá-lo, ou magoá-lo?
Penso em quantas pessoas gostariam de ser deuses, e gostariam de fato de sentir o prazer de pegar seu lugar para sempre universo afora.
Coitados, pobres coitados! Não imaginam a tristeza e a solidão que é ser dono de tudo por todo o sempre.
Por que causa tenho que ficar lutando para chegar à uma conclusão final sobre esse assunto?
Sei que sinto sua presença nas vezes de dúvida, e quando peço que ele apareça sempre sinto que ele me atende.
Me atende ou me obedece, me atende ou me obedece?
Obedecer no sentido de ser sua presença apenas efeito placebo da minha imaginação.
Ou obedecer no sentido de que tradicionalmente parece que Deus tem uma obrigação infinita para conosco, no sentido de que não importa quanto o desprezemos ou contrariemos suas regras, simplesmente voltando atrás e nos arrependendo atende à regra de ouro de torná-lo ao nosso lado novamente.
Lembro-me de alguns momentos que senti ele na minha presença, e foram momentos que chamei-lhe ao meu lado.
Será que é assim simplesmente porque nossa teimosia é ínfima frente à paciência titânica do onipresente?
Ou porque ele mal sabe que nós de fato queríamos maltratá-lo, ou magoá-lo?
Penso em quantas pessoas gostariam de ser deuses, e gostariam de fato de sentir o prazer de pegar seu lugar para sempre universo afora.
Coitados, pobres coitados! Não imaginam a tristeza e a solidão que é ser dono de tudo por todo o sempre.
Isso me faz lembrar dos meus sonhos almejados na época de faculdade.
Me idealizei eterno, ou pelo menos com uma sobre-vida fabulosamente maior que qualquer ser humano já vivo nessa terra. Então me imaginei me formando médico, engenheiro, advogado, sendo um cientista com pesquisas extremamente aprofundadas, um especulador com talento nato apurado por séculos sobre qualquer espécie de negócio, o prefeito, governador, presidente, chanceler mundial, o próprio Fuhrer!
E então, com todos os bilhões acumuladas, com meus descendentes comandando todo o planeta, nada mais se importando, e toda minha história caminhando para a involução.
Deixaria minhas fortunas para trás, as guerras, a esperteza e a especulação, a sabedoria e a cultura, e assumiria cargos vulgares, trabalhos ordinários em funções triviais.
Me idealizei eterno, ou pelo menos com uma sobre-vida fabulosamente maior que qualquer ser humano já vivo nessa terra. Então me imaginei me formando médico, engenheiro, advogado, sendo um cientista com pesquisas extremamente aprofundadas, um especulador com talento nato apurado por séculos sobre qualquer espécie de negócio, o prefeito, governador, presidente, chanceler mundial, o próprio Fuhrer!
E então, com todos os bilhões acumuladas, com meus descendentes comandando todo o planeta, nada mais se importando, e toda minha história caminhando para a involução.
Deixaria minhas fortunas para trás, as guerras, a esperteza e a especulação, a sabedoria e a cultura, e assumiria cargos vulgares, trabalhos ordinários em funções triviais.
Misturar no mundo, o anonimato, o viver mais um dia simplesmente porque nenhum luxo seria bom pra mim, nenhum castelo grande o suficiente, nenhum exército armado como gostaria exatamente que fosse.
Então seria vagabundo, bandido, viciado por anos, pederasta, tarado, assassino e corrupto, corruptor e covarde, vacilante e vilão.
Choraria sem ninguém pra me consolar, encheria meu coração de fúria e de destruição.
Então, tentaria inventar a morte, mesmo sabendo que ela não poderia existir pra mim.
Choraria sem ninguém pra me consolar, encheria meu coração de fúria e de destruição.
Então, tentaria inventar a morte, mesmo sabendo que ela não poderia existir pra mim.
Tentaria buscar o niilismo, mesmo sabendo que o nada nem mesmo a meditação e o nirvana poderiam de fato aplacar a mente e o corpo de um ser materialmente imortal.
Acredito claramente, talvez por arrogância e vislumbre do meu estado atual, que eu buscaria tentar esquecer as experiências passadas, fugiria dos excessos e tentaria em fim ser uma cara normal, como eu ou como você, com um emprego, uma casa, um aluguel e um cartão de crédito para pagar.
Porque esse são os problemas realmente suportáveis nesse universo, e nenhum outro mais.
Porque esse são os problemas realmente suportáveis nesse universo, e nenhum outro mais.
Finais não importam
Acaso gostaria eu de me especializar nas preliminares, nos intróitos e nas formalidades iniciais? Sim, porque se eu abrisse e lê-se trechos à esmo, ficaria claro e assumido que estou voltado para a diversão esparsa e imediata, mas aparentemente sinto-me acovardado em assumir que não quero mais ler livro algum, então quando os abro de forma magnífica sentindo seu cheiro de novo com grata novidade no estilo e forma autorais, vou sempre para seus inícios.
Gosto de coisas novas, e de contar casos furtivos que me aparecem na mente. Tenho alta dificuldade em escrever memórias ou continuar histórias de outros dias. Seria essa atitude um exemplo do espírito nômade e casual que cerceia os grandes projetos de nossa geração?
Percebi algo parecido com minhas leituras. Cada dia que vou na biblioteca, e minhas visitas são diárias, quero ler trechos de um novo livro. Sempre começo do prefácio, e quando ou se os venço, parto para o início do capítulo primeiro.
Mas de lá sou condenado a nunca mais voltar. O que de fato significa isso? Eu me faço essa pergunta freqüentemente, o porque não dignificar nenhuma obra com um pouco da minha paciência e persistência?
Sabem vocês, como sei eu que a memória do ser humano não se compara às memórias dos elefantes, então se, de alguma forma voltar a ler esses livros talvez daqui cinco semanas ou anos, tornarei a começá-los novamente da contra capa, sob risco de mal lembrar de que se trata o início do livro e seu primordial incidente incitante.
Falou aquela amante de gatos
Quem foge do grito que mora lá dentro?
Quero novo, quero algo novo, que não posso sempre cantar nesse palco canções tão tristes sem verter algumas vezes inspiração.
Quero tédio, só um pouco de tédio, que de estresse e terror vivemos todo o tempo. Um copo de vinho por um minuto de silêncio na minha cabeça, e não falo de garrafa casta, mas coisa fina de boa cepa!
Ai, se me dessem mais tempo, pra falar quanto mais coisa quero, que sou um homem de paixão, rico de amor e cheio de evidências de um não bastar infinito!
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Masoch, o escritor que discursava
Em um tempo não muito distante, também não muito remoto, um escritor escreveu um livro contando uma história.
Era uma boa história, pensou, ao ver seu trabalho concluído.
Porém não sabia de fato como faria para que as pessoas lessem essa obra prodigiosa que custara lhe grande trabalho para sua construção.
Desolado, por ter em mais apenas seu original e nada mais, bem parentes bem amigos que gostassem de ler ou lhe pudessem indicar uma editora, Masoch, esse é o nome que lhe daremos, estava desolado, imaginando o ostracismo eterno de sua recém nascida história.
Um dia, voltando do trabalho e sem nada de importante para fazer, sentou se ao computador com café e rosquinhas nas mãos.
Olhou sites cotidianos, fofocas de celebridades e outras tantas trivialidades às quais estamos tão acostumados a doar nosso escasso tempo de vida útil.
Um link então o remeteu à uma página do you tube onde se encontrava um vídeo em que um aspirante a ator encenava um monólogo em frente à um pano preto.
A encenação era sofrível e o texto escolhido era péssimo, mas serviu de inspiração para o grande momento de epifania que Masoch teve.
Ele pensou em narrar seu livro em um grande vídeo com todas as vozes, tempos e pausas dramáticas que idealizara para seu texto.
Naquele dia e nos seguintes, Masoch nada mais fez do que preparar se para a narração.
No início, narrou em seu quarto, com alguns problemas de áudio ou de buzinas provenientes da rua em frente ao seu apartamento.
Depois, seus conhecidos e parentes começaram a ficar curiosos e decidiram bisbilhotar sua recém atividade secreta.
Com o tempo, porém, Masoch arrumou jeito para enfrentar cada um dos pequenos empecilhos que atravancavam seu projeto e deu prosseguimento â um fluxo consistente de trabalho. Masoch até se deu ao luxo de gravar trechos em bares onde fumaça cigarros, subindo montanhas, andando de bicicleta e até no consultório de sua dentista.
Tinha em maios um vídeo de quase trinta horas contendo a completude de sua obra. Narração, imagens bonitas e condizentes com o texto, até alguns efeitos especiais sonoros e demais penduricalhos ornamentais.
Porém não sabia de fato como faria para que as pessoas assistissem esse vídeo prodigioso que custara lhe grande trabalho para sua construção.
Então depois de pensar por um dia inteiro, decidiu contratar um agente. Fim.
Porém não sabia de fato como faria para que as pessoas lessem essa obra prodigiosa que custara lhe grande trabalho para sua construção.
Desolado, por ter em mais apenas seu original e nada mais, bem parentes bem amigos que gostassem de ler ou lhe pudessem indicar uma editora, Masoch, esse é o nome que lhe daremos, estava desolado, imaginando o ostracismo eterno de sua recém nascida história.
Um dia, voltando do trabalho e sem nada de importante para fazer, sentou se ao computador com café e rosquinhas nas mãos.
Olhou sites cotidianos, fofocas de celebridades e outras tantas trivialidades às quais estamos tão acostumados a doar nosso escasso tempo de vida útil.
Um link então o remeteu à uma página do you tube onde se encontrava um vídeo em que um aspirante a ator encenava um monólogo em frente à um pano preto.
A encenação era sofrível e o texto escolhido era péssimo, mas serviu de inspiração para o grande momento de epifania que Masoch teve.
Ele pensou em narrar seu livro em um grande vídeo com todas as vozes, tempos e pausas dramáticas que idealizara para seu texto.
Naquele dia e nos seguintes, Masoch nada mais fez do que preparar se para a narração.
No início, narrou em seu quarto, com alguns problemas de áudio ou de buzinas provenientes da rua em frente ao seu apartamento.
Depois, seus conhecidos e parentes começaram a ficar curiosos e decidiram bisbilhotar sua recém atividade secreta.
Todos que o viam achavam no louco, mas que mais deveriam fazer se sua loucura era inofensiva e pouco incomoda para os outros?
Falar por falar sozinho, por isso inventaram os celulares. Pois bem. Após um ano de serviço, pós termo ao seu projeto. Tinha em maios um vídeo de quase trinta horas contendo a completude de sua obra. Narração, imagens bonitas e condizentes com o texto, até alguns efeitos especiais sonoros e demais penduricalhos ornamentais.
Porém não sabia de fato como faria para que as pessoas assistissem esse vídeo prodigioso que custara lhe grande trabalho para sua construção.
Então depois de pensar por um dia inteiro, decidiu contratar um agente. Fim.
A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin
O prefácio do livro dessa autora é o máximo. Ela diz que geralmente a ficção científica se dá por meio da extrapolação. Então, exemplifica que doses pequenas de alimentos ingeridos diariamente por seres humanos normalmente causam câncer em ratos em doses cavalares.E então compara isso à ficção científica extrapolada, que sempre torna o mundo futuro em algo caótico e potencialmente perigoso.
Depois, Úrsula nos diz que existe também a ficção científica feita através do sentimento da época, ou seja, o que o autor sente das relações humanas no presente, e a experimenta em um contexto alienígena, não existente em lugar nenhum de universo que não seja sua própria mente criadora.
Ela separa o profeta, alguém que prevê o futuro gratuitamente, o vidente, que o prevê por honorários, o futurólogo de forma assalariada, e então diz que o escritor de ficção científica não é de nenhuma forma comparável a eles, pois este vive da mentira descarada.
O escritor não prevê nada, ele ao contrário inventa, ou seja, mente algo baseado como os seus conhecimentos e premissas de mundo presente.
Cita no final o eterno paradoxo da escrita, que é utilizar-se dela para fazer com que pessoas pensem em coisas indizíveis em palavras.
Como diria Mário Vargas Llosa em um ensaio, o romance não nasce da simples escrita de seu autor, mas na primeira leitura de sua obra. Excitante perspectiva.
Esboço das terras negras de Alice
Sobre os escombros e funéreos passeares de almas, restos de gente meio viva e outras cousas de aspectos pútridos e causticantes, onde nos subsolos habitam grandes répteis metálicos de velocidade e ferocidade inimagináveis, apesar dos dóceis caminhos previsíveis, um lugar capitaneava os seres daquele mundo, em meio aos grandes e incomensuráveis quênions de concreto. Um lugar em que os seres disformes e mutantes ganhavam espaço para exercerem suas barganhas pela sobrevivência, e nada era de fato vil ou suficiente desnecessário para tornar-se desperdício. Muitos vinham de longe para os negócios nesse vale sagrado, outros apenas passavam para ir até os outros pontos do reino. Tudo passava por ali, e nada lhe fugia da percepção. Difícil é imaginar como tanta coisa podia se mexer ou respirar o mesmo ar nesse ambiente infestado de moléstia e vida extrema fervilhando, mas tente, mesmo que por um instante, mesmo que tenha de buscar na mais profunda e ardilosa cepa de seu inconsciente. Quando num lapso de vislumbre conseguir ver algo disforme remexendo-se em vermelho e negro como as entranhas de um porco expostas à céu aberto, quando sentir o calor humano latejar-lhe a têmpora como uma enxaqueca cegante, daí pode dizer que teve uma centelha de consciência do que é esse inferno terrestre, conhecido pelos nativos e aventureiros como "A praça da Sé".
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