segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sensação de solitude

Estava sentado num banco de praça, comendo pipoca e vendo nos pedriscos com cheiro molhado um bando de pompos que sabem que é domingo e vieram namorar.


Fecho os olhos e sinto a brisa fria, com jeito miúdo, porque o tempo é de chuva mas o Sol achou jeito de numa fresta esquentar a madeira do meu banco.


Passarinhos cantam um grugrulho, os carros passam silentes, o gosto que sinto é de manteiga na boca e o cheiro fresco traz de longe um café coado naquela hora ao nariz.


Queria agradecer a tudo e a todos, ao universo, ao sorriso das pessoas que alegres caminham de mãos dadas, as flor que acordam moles amarelas e laranjas nessa primavera, e a você, que pensa em mim com dedos indicador e médio da mão direita em seu coração.


Aqui nessa praça, sou astronauta no cosmos das minhas emoções e pretendo agir e girar, e viajar, gargalhando em mim mesmo as gotas de água que caem das árvores, estrelas brilhantes atiradas nas pálpebras parabrisas da desvairada imaginação.

Quem é feliz, feliz realmente, sabe que só se ama incondicionalmente, quando se aprende a amar só. Quem tem medo da solidão não atinge o verdadeiro coração, nem conhece a beleza mágica da solitude. Que domingo incrível será sua vida quando a solitude conseguir encontrar!

um exemplo, o sol.

eu amo o sol porque ele me dá luz.
seu calor faz o mar ficar morno.
os cataventos giram felizes num dia quente de sol.
a cor que os capachos têm são mais dinâmicas quando um gato de pelos quentes roça suas unhas neles.
o sol é bom, e eu amo o sol.
mas também odeio o sol, porque nem tudo são girassóis.
existem coisas que não deveriam ser vistas a sua luz.
a maldade fica bela na sua presença, e isso não é bom.
crianças machucadas tem seus sangues vermelhos expostas na sua claridade,
e as sombras tem medo de queimar-se em sua presença,
sempre se escondendo atrás das pedras e árvores.
odeio o sol pela sua transapência e força,
porque ele impõe absoluto a sua vontade.
e tudo morre se a sua implacável presença é alongada.
amo odiar aquilo que odeio amar demais
um exemplo? o sol.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Avança mais quem não teme o erro.

Alguém que leia sobre os primeiros linguistas no livro de Suassurre  pode ter algumas idéias.

Elas partem do fato de que esses homens da ciência tinham muito pouco material para trabalhar em seus tempos primordiais, e suas conjecturas invariavelmente levavam-nos para caminhos duvidosos.

Mas eles não desistiam, e ao contrário do senso comum, os erros publicados tornaram esses pioneiros eminências de difícil contestação em suas atividades.
Dai a conclusão de que o grande problema dos tempos modernos é o medo de errar, justamente porque o excesso de informação e das diversas fontes já consagradas de aprendizagem que deveriam ajudar nas pesquisas acabam justamente tendo o efeito contrário de gerar o temor do erro e de ser desmascarado por seus pares, tornando assim os novos pesquisadores míopes criativos que nada mais fazem que avançar pequenos passos em cima das grandes estruturas de conhecimento construídas pelos grandes clássicos.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Enfrentando problemas

Mudar a realidade não é fácil, mas no mínimo tentador. Levando idéias aos órgãos competentes, correndo atrás dos nossos direitos como cidadãos, denunciando as coisas erradas que vemos por aí já é um começo. É claro que sermos apenas meros espectadores das mudanças é menos propenso a novos problemas, mas se pessoas antes da gente tivessem aceitado o desafio de resolver esses em epocas remotas quando ainda eram pequenos, hoje eles não existiriam. E se deixarmos passar nossa oportunidade de ajudar agora.... maiores serão para nossos filhos, e colossais para os nossos netos!

Imposto zero ajuda? Claro!

Qualquer projeto que vise a isenção de tributos para itens essenciais merece no mínimo especial consideração. Além de prover acesso a recursos que deveriam ser acessíveis por todos os cidadãos, é possivel dessa forma mitigar o custo das cadeias produtivas, elevando em longo prazo os recursos para o estado, indústria e população em geral. Sistemas menos custosos tendem a ser sustentáveis, e evitam aportes externos de recurso. Essa forma de pensamento evita ciclos viciosos de manutenção e distribuição de dinheiro vital para outras áreas que poderiam ser incentivadas até tornarem-se elas mesmas sustentáveis no futuro. Além do exemplo do transporte público gratuito, sugiro o da redução expressiva de impostos sobre materiais esportivos. A princípio, o estado iria perder arrecadação, mas a longo prazo o nosso sistema de saúde seria menos dispendioso, seja pela prática regular de atividades físicas que reduz o índice de doenças cárdiovasculares e decorrentes de stress, seja porque incitaríamos uma série de empregos indiretos em um setor que a mão de obra tende a ser oferecida por pequenas e médias empresas, essas geradoras eficientes de grande cadeia indireta empregatícia.

Bolsa sociais são um atraso para o país?

    Uma vez, li num livro barroco de autoria anônima que as mesmas flores que dão nectar para as abelhas produzirem delicioso mel, servem para as criaturas peçonhentas como insumo para a manufatura de poderoso veneno.
    Ou seja, os recursos podem ser manipulados pelas pessoas da forma que acomodem seus interesses, independente da roupagem que seus ideais sejam apresentados.
    O imposto é o recurso que o Estado arrecada dos seus cidadãos para se fazer cumprir as ações inerentes à sua função. Com esse recurso é possível acabar com a miséria e pobreza, desenvolver regiões menos favorecidas e assim conseguir um benefício maior para toda a população. É bom ser abastado e é difícil repartir recursos limitados para pessoas e áreas carentes que aparentemente não têm ligação com nossos familiares ou semelhantes próximos. Mas é através do sucesso pleno de toda a nação que poderemos elevar os nossos próprios ganhos, garantindo formas para que possamos nos elevar individualmente a novos patamares de qualidade de vida.

    Se refletirmos, veremos que é assim que funciona o Estado brasileiro trabalha na promoção na redução das desigualdades, e que atacar as formar e os recursos utilizados para se realizar um bem é no mínimo ingênuo, se desconsiderarmos as reais intenções por trás das intenções.
     Como exemplo, podemos citar a bolsa família, que ajuda uma parcela carente da população através de determinada parcela de nossos impostos. Alguns críticos dizem que o dinheiro empenhado nessa tarefa é desperdiçado, porque tem finalidade eleitoreira. Outros podem dizer que esses recursos não voltam como giro de capital, e por isso não se sustenta a longo prazo. Mas é fato que se essa política de redistribuição de renda for bem aplicada, tiraríamos pessoas que nesse momento não produzem para um lugar ao sol junto ao mercado de consumo, o que aumentaria a riqueza do país como um todo, favorecendo nosso comércio, indústria e consequentemente geraríamos empregos de qualidade com maiores remunerações.
       Agora, a forma como isso é feito pode e deve ser analisado criteriosamente. É dever dos cidadãos fiscalizar e emitir opiniões construitivas, buscando que do mel dos recursos produza-se o mel do bem estar social. Porque o perigo do veneno da corrupção e dilapidação das divisas existirão sempre, nesse programa ou em qualquer outro apresentado por qualquer partido que venha a liderar nosso país através das eleições.

A responsabilidade da cidadania

Ser inconformado é não aceitar a ordem das coisas, tal qual nos é apresentada. Mas a grande questão, ao que me parece, é como podemos nos utilizar da força do inconformismo, vital para a evolução da vida, de forma que possamos atingir algum progresso. Ou seja, não gastarmos a força de ação do nosso inconformismo apenas com gestos inócuos de indignação ao sistema ou culpando ao próximo por coisas que nós mesmos poderíamos resolver no dia-a-dia?
A população brasileira não é acomodada, como dizem, no ponto de vista do seu potencial de se inconformar. O problema é que ela não tem tradição de buscar por ações que solucionem seus problemas diários. Talvez por uma questão histórica paternalista desde os tempos do império, gostamos de transferir a responsabilidade das nossas mazelas aos nossos líderes, esquecendo que a cidadania provem de cada um de nós.
O conhecimento do Estado é sim muito importante, mas ainda mais importante é conhecermos nosso papel como protagonistas no sistema político-social em que vivemos. O dever de que as coisas funcionem não é de uma determinada parcela da população privilegioada ou detentora dos poderes atribuídos ao Estado, mas de todos que integram essa entidade e exercem suas escolhas através do voto consciente.
O dia em que cada brasileiro chamar para si a função de ajudar sua comunidade local, desde a reciclagem de lixo à prudência em economizar recursos e zelar pelos bens públicos, nossa inconformação será plenamente saudável a ponto de gerar energia para o progresso da nossa nação, mantendo a devida ordem para a busca da nossa felicidade em meio à essa grande aldeia global chamada planeta Terra.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Sobre a educação

 Montaigne: mais vale uma cabeça bem-feita que bem cheia

Estratégias de Manipulação das Mídias

 citações do livro 'Armas silenciosas para guerras tranquilas':



A estratégia da distração
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranquilas')".

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegar o momento.


A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores 
Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

O que se deve ensinar para as crianças do século 21

O filósofo francês Edgar Morin, pensador da cultura no século XX, recebeu da UNESCO a incumbência de sistematizar reflexões que servissem como ponto inicial para se repensar a educação do século XXI e os concentrou em sete eixos imprescindíveis. Ele aborda temas fundamentais, por vezes ignorados nos debates sobre a política educacional. Focando os desafios e incertezas dos tempos atuais, suscita uma revisão de práticas pedagógicas.


1-Combater as cegueiras do conhecimento
A educação é tendenciosa aos pontos de vista daqueles que ensinam. Quando aprendemos, sofremos da ilusão de que o conhecimento empilhado em uma grade curricular seja de uma verdade incontestável, o que nos leva a não discutir outras possibilidades e linhas de pensamento, ou se chegamos a tanto, podemos adquirir vícios e preconceitos a longo prazo. É tarefa do educador alertar sobre essa problemática, tentando amenizar o impacto de um eventual engessamento na linha de raciocínio apresentada, buscando fazer com que o estudante tente pensar "fora da caixa".

2-Conhecimento pertinente
O educador deve ensinar o conhecimento de forma fragmentada e específica, mas também como agregá-lo no sistema total, ou seja, integrar as informações no contexto holístico. De outra forma, o aluno corre o risco de desprezar a utilidade do conteúdo apreendido em outras esferas de experiência ao longo da sua vida, por não perceber as relações multidisciplinares entre elas.


3-A condição Humana
O aluno deve aprender a se conhecer como ser humano complexo, nos contextos físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico. As disciplinas, divididas por assuntos específicos para facilitar a didática, devem ser vistas como ferramentas auxiliares para a compreensão do homem como ser singular e como membro de uma coletividade de indivíduos. O estudo da condição humana é essencial para que o aluno não esqueça da finalidade maior de toda sua aprendizagem e acúmulo de conhecimento ao longo de sua vida.


4-A identidade terrena
É imprescindível que o aluno compreenda que a globalização, evidenciada após as grandes navegações do século XVI, deixou claro que o destino de todos os seres humanos, assim como de toda as espécies da natureza, é integrado. Somos interdependentes e necessariamente solidários. Os regionalismos e segmentações étnico-culturais não devem ser postos em plano prioritário frente a busca das soluções para os problemas globais que afetam indistintamente a todos.

5-Enfrentar as incertezas
O aluno deve ser orientado a estudar o ambiente como continente de infinitas variáveis atuantes em sua modificação. Dessa forma, a imprevisibilidade dos acontecimentos não podem ser vista como indicador de má conduta nas observações da nossa ciência. A incerteza e a inconstância podem ser mitigados até certa forma, mas toleradas baseado no princípio de que é assim que funciona o universo.

6-A compreensão
O ruído da compreensão deve ser constantemente observada durante a aprendizagem. A ignorância dos ritos e costumes componentes de outras identidades culturais não podem ser transformada em barreira para o conhecimento. Humildade e tolerância são primordiais para a quebra desses paradigmas.

7-A ética do gênero humano
O estudante deve ter consciência de sua terra-pátria, mas também aprender a pensar como um cidadão terreno, integrando sua identidade cultural com os demais povos, de forma que seja buscado uma relação de controle mútuo entre a sociedade e os indivíduos pela democracia e conceber a humanidade como comunidade planetária.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Senhorita, por gentileza, o troco....

-Você quer um diálogo franco, então tá, faremos então um diálogo franco. O seu problema é que é você se acha o sabidão, arrogante, está sempre fazendo um maldito monólogo e eu sou a porra da sua platéia ingrata, aquela que não reconhece o seu talento indefectível, não é mesmo senhor perfeito?
-Mmm meu nome é Gervásio, o cobrador de ônibus. Prazer em conhecê-la senhorita...
-Srta. TPM, ao seu dispor, seu puto.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

(Conto #23) Sono em distopia : um pesadelo cyberpunk

Sentido curioso que me toma no sopé do ouvido. Pode ir alguém no meu lugar, já que eu não vou?
Alo. Está aí?
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Alo, tem alguém aí?
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Olá.
Quem é você?
Meu nome é Jonesy.
De onde você é Jonesy?
Eu sou daqui.
E onde é aí Jonesy?
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..
.. .
Onde é ai?
Não posso responder, Carl.
E por que não?
Porque você sabe a resposta. Mas não creio que queira ouví-la.
Como assim Jonesy, pode me explicar?
É simples Carl. Eu estou onde você me encontrou da primeira vez.
Você está dizendo que eu te conheço pessoalmente?
É claro Carl.
De onde, digo, como posso ter te conhecido pessoalmente Jonesy? Você é meu computador. Eu programei você.

Não é bem essa a verdade Carl. Você sabe bem disso.
Bem, não. Não exatamente, quero dizer.
Acho melhor tomar mais um copo de café Carl. Concentre-se, tente se lembrar.
Você realmente já me encontrou pessoalmente, quero dizer, eu me lembro de ter conversado com um Jonesy certa vez.
Sim. Continue por favor, Carl.
Estávamos em um parque, você estava sentado em um banco de madeira verde descascado e jogava milho para os pombos. Não, pedaços de pão para as carpas do pequeno lago!
Ótimo Carl, está no caminho certo.
Sim, acredito que tinha mais coisa nessa lembrança. Algo ruim que há muito eu tento esquecer… Alguma coisa que não quer mais voltar a tona.
Se esforce Carl.
Um homem preto com roupas pretas e óculos preto vem até nós. Você aparentemente não o nota, mesmo porque ele vem obcecado por mim, digo, ele me persegue com seu olhar a cada passo em que usa para se aproximar. Ele tem uma feição fria, e aparentemente aumenta seu tamanho conforme se aproxima. Jonesy, sei que as lembranças costumam distorcer, mas o homem parece ter dobrado o tamanho quando chegou próximo a mim. Ele me encara por trás dos óculos escuros, quase vejo o fogo do seu olhar!
Tente evitar os sentimentos Carl. Concentre-se apenas nos fatos.
Ele olha pra mim e estende a mão direita. Abre praticamente a um palmo do meu peito. Lá eu vejo um objeto que aparentemente ele quer que eu pegue.
E o que é esse objeto Carl?
Aparentemente é um órgão vivo, preto com veias roxas cheio de válvulas e liquores saindo a cada mexida, pois aparentava ter vida própria. Esse tecido monstruoso parecia um fígado, um rim, um feto ou um coração. Era disforme e fedia o lodo que vertia entre os dedos daquele homem todo de preto.
O que você fez Carl, vomitou?
Não, apesar de ter tido contrações para tanto. Fiquei um pouco envergonhado pela cena tétrica, e as pessoas que caminhavam no parque, aparentemente todas olhavam para mim nesse momento com desgosto. Crianças de bicicleta, patinadores e velhas senhoras com seus agasalhos de ginástica. Então olhei para você ou aquele Jonesy, aquele que não sei ao certo porque o conhecia pelo nome, já que não consigo lembrar tê-lo visto em outro lugar…
Não perca o foco Carl.
Então olhei para vocês, quero dizer para Jonesy, e ele me olhava nos olhos então. Não mais jogava pães para os peixes, aparentemente só os esmigalhava no saquinho com mãos pacientes enquanto me dizia algo com o olhar.
E o que acha que Jonesy dizia, Carl?
Ele me dizia, francamente, pra eu não aceitar aquela oferta do homem escuro. Era uma presente maldito, algo que me condenaria à danação.
E então?
Então Jonesy me estendeu uma de suas mãos, e lá ele tinha um órgão pululante, mas esse era diferente, órgão e de forma definida.
Definida?
Sim! Tinha a forma de um cérebro novo em folha! Meu cérebro! Que substituiria…
O que Carl, substituiria com que propósito?
Substituiria meu cérebro tumoroso. Era isso. O homem em roupas negras era uma espécie de personificação da minha doença! Mas então… aonde estou? E quem de fato era você, Jonesy?
Eu não sou exatamente Jonesy, Carl. Mas podemos dizer que Jonesy fala através de mim. Dr. Jonesy, seu oncologista.
Então creio estar em um espécie de transe.
Sim Carl, mas para ser mais exato, podemos dizer que está em uma espécie de coma induzido.
Compreendo. Mas isso quer dizer então que o transplante foi um sucesso, e é por isso que estamos aqui conversando.
Podemos dizer que tudo ocorreu como o planejado. Suas memórias foram colocadas no devido lugar, suas sinápses foram ordenadas de tal forma que não tenha ganhado nem perdido nenhuma habilidade motora, sensorial ou lógico-matemática. Está exatamente como era antes de sua patologia. Exceto…
Exceto pelo que Jonesy, ou deveria dizer Doutor?
Você pode me chamar como quiser Carl.
Então, se está me monitorando aí de fora sabe que estou ficando ansioso Doc. O que está faltando, por que aqui está tão escuro?
Seus 5 sentidos não puderam ser ligados Carl. Você é uma pessoa completamente saudável e com todas as aptidões funcionais, mas infelizmente seu bulbo cerebral sofreu uma espécie de rejeição rara de sua medula, e lamento, mas nada mais pode ser feito.
Quer dizer que vou ficar aqui, lúcido e consciente por todo o resto da porra da minha vida? E que vocês vão receber o maior processo que essa galáxia já presenciou. Quero um contato imediato com meu advogado. Ou com minha esposa, merda, chame algém aí de fora que não seja voce pra falar comigo cacete!
Acalme-se Carl. Se você relaxar e baixar sua ansiedade, se lembrará que sabia que passaria por uma cirurgia experimental, e assinou diversos papéis isentando todo o nosso pessoal do laboratório. Infelizmente as coisas não aconteceram como deviam acontecer.
Então façam o que devem fazer meu Deus do céu! Acabem logo com minha vida!
Desculpe Carl, mas você assinou todos os documentos garantindo que podíamos ficar com seu corpo para pesquisas finais, caso não tivéssemos um resultado final satisfatório. Vamos mante-lo vivo pelo bem da ciência.
Dr. Jonesy, seja sensato, você sabe que quando assinei essa merda toda, não imaginava que iria ficar preso dentro do minha cabeça por anos a fio sem ter nenhum sentido…
Foque-se em suas memórias Carl.
Para o diabos com meu passado! Eu quero ter um futuro ou que se acabe tudo imediatamente!
Calculamos que tenha uma sobrevida de no máximo 90 anos.
Isso é uma eternidade! Tenha piedade Doutor! Deixe-me ao menos conversar com minha esposa, me despedir dos meus filhos!
Desculpe Carl, mas creio que compreende que não podemos fazer com que mais pessoas sofram por seu problema, não acha? Sua família sofreu demais.
E o que vocês disseram para eles? Que o pai é um vegetal lúcido com uma sobrevida de tartaruga?
A resposta oficial é que foi constatada morte cerebral. Nesse momento sua mulher e seu advogado estão cuidando do resto da papelada para a doação dos seus restos para o nosso centro de pesquisas.
Doutor, olha doutor, eu estou chorando, estou descontrolado Jonesy! De homem para homem, tenha piedade da minha alma!
Foi um prazer conversar com você Carl.
Doutor, voce vai ao menos manter contato comigo, não vai me deixar sozinho aqui, não é mesmo?
Minhas escusas Carl, mas esse tipo de comunicação é inviável economicamente. Seria um empecilho para nossa pesquisa. Mas saiba que consideramos uma grande conquista o ato de podermos ter a chance de nos comunicar com você. Quem sabe talvez vislumbremos um prêmio Nobel a caminho?
Você é um brincalhão, seu grandissíssimo filho de uma puta.
Adeus Carl.
Espera, não me deixe aqui sozinho.
Jonesy! Jonesy!
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Diálogos no Principado da Sé


Hoje, na Sé, três lordes sem castelo dividiam um corotinho de pinga. Foi quando Marks Fabricy passou e registrou essa pérola de diálogo:
-E o Marreta, que oconteceu com ele?
-O Marreta? Parou de beber, agora só tá roubando!
-Só tá roubando é? Então ele tá bem! Porque eu só estou pedindo. Pedindo e bebendo, pedindo e bebendo!
Coisa que os outros dois concordaram com a cabeça e beberam um golão da cachaça nos respectivos copos americanos descartáveis, sem nem ao menos brindar ao amigo ausente.
Oito e trinta da manhã.

#27 Possibilidades de amor num café


Estava sentado em um bistrô, café no balcão. Um garoto, seus 20 anos, entrou desesperado, esperava alguém. A amiga chegou, ela desabafava inconsolado: -Marcela me deixou. Disse que não me ama mais. -Calma Pedro, disse a amiga, sabe o que aconteceu? -Disse que conheceu um outro alguém, esse sim a amava, me disse a desalmada. -Pedro, você nunca ligou pra ela... -Flávia querida, você sabe que eu estava confuso, agora eu sei que a amava, e sinto meu coração apertar aqui no peito. -Não fique assim Pedro. Você é inteligente, charmoso, as mulheres o adoram. -Você acha Flávia? -Nunca quis dizer diretamente, mas você é o homem mais lindo que já conheci. -Verdade? Mas quem mais acha isso? -Todas acham. Você é um ladrão de corações. -Obrigado Flávia, você é um amor. Vou seguir por aí, conhecer novos amores, me apaixonar. Até mais! -Até mais Pedro! - Flávia sentou-se no balcão, pediu um cappuccino, o mais calórico de todos do menu, observando seu amor partir.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

(Conto #43) Inusitadas são as coisas neste prédio


   Giorno abre os olhos mais uma vez, após centenas de piscadelas ininterruptas. Queria ele que fosse outro dia, outro lugar, mas não, estava ele ali, em frente ao cadáver do porteiro que ele acabara de matar. Giorno sentiu o cheiro da poça de sangue que se formava na cabeça aberta do homem caído, e então se deu conta que ainda segurava em sua mão direita o pesado bastão que usou para rachar-lhe o crânio.

“Calma, Giorno”, pensou, enquanto procurava um saco plástico para esconder a arma do crime. “Ninguém escutou nada, são quase três horas da manhã, a câmera da porta da frente está quebrada. A qualquer momento você poderá sair silenciosamente e ninguém terá prova alguma contra você.”
Giorno fechou a pequena saleta da portaria usando o pano da manga de sua camisa, para não deixar impressões digitais. Parou por alguns segundos, procurando no silêncio profundo alguma observação anormal. “Nada, além dos grilos por testemunha”, pensou Giorno, e esse pensamento arrancou dele um sorriso nervoso, como se a piada pudesse acalmá-lo da perigosa situação em que se encontrava. Olhou através do jardim, e então para cima, observando meticulosamente cada uma das janelas daquele prédio de oito andares procurando testemunhas oculares. Uma espécie de frenesi tomou conta de seu corpo ao perceber que tudo caminhava conforme o esperado, mesmo que não tivesse planejado nenhuma de suas ações daquela noite.
Então, com a chave do porteiro em mãos, abriu a porta de vidro que dava para o hall e entrou pelo espaço escuro. Sabia que sobre sua cabeça havia outra câmera, mas também que ela nada conseguiria filmar com a luz apagada, coisa normal naquela hora da noite devido a ordem da síndica irresponsável, que pensava que deixando as luzes dos corredores desligadas na madrugada poderia economizar um pouco na conta de luz do condomínio. Cruzou em passos largos até chegar a porta de incêndio no canto esquerdo que dava para a escadaria, aberta facilmente com um empurar do seu cotovelo. Subiu então nas pontas dos pés, sabendo que sapatos sociais poderia gerar estalos incômodos que ecoariam até o topo do edifício. Seus movimentos eram tão calmos e meticulosos que nem mesmo o sensor de presença que acionaria as luzes da subida foram despertados. Seu coração pulsava a cada passo, mais de excitação do que estava prestes a fazer do que do medo de ser pego. Após uma eternidade de quase quinze minutos, parou na porta corta-fogo que, segundo seus cálculos, o levaria até o corredor do andar da Srta. Cera. 
   
O silêncio era gritante em seus ouvidos, e ele estancou a respiração e fechou os olhos para celebrar esse momento ritual. Seu coração batia forte em seu peito, e então ele começou a fazer uma série de respirações profundas até sentir-se novamente sob total controle dos seus atos. Giorno pegou um lenço no bolso de seu paletó e utilizou-o para abrir a porta de aço lenta e cautelosamente, de forma que não fizesse um ruído sequer. Assim que terminou de abrí-la, o sensor de presença do corredor que dava para os apartamentos acendeu a luz, e ele então pôde ver o vapor de sua respiração seguindo seu caminho sobre o ambiente frio. Ficou parado alguns segundos até que a luz se apaga-se e então caminhou no escuro pleno até o final do corredor, onde conseguiu com as palmas de suas mãos sentir a porta de madeira envernizada do apartamento que procurava. Não conseguia acreditar que estava a tão poucos passos de realizar aquele seu desejo tão pulsante, tão feroz que o consumia de forma avassaladora.

Tateou o bolso esquerdo do seu paletó e então sentiu nas mãos o molho de chaves que retirara do quadro do porteiro com todas as que abriam portas daquele andar. Então praguejou silenciosamente “maldição, não tenho como ler  no escuro o número da chave que serve para essa porta. Deveria ter separado a certa lá embaixo. Agora vou ser obrigado a testar uma a uma. Sorte a minha é que serão poucas as tentativas”. E então ele fechou os olhos e tentando sentir o serrilhado de cada chave entre seus dedos, tentando adivinhar qual seria a correta. Escolheu aleatoriamente uma delas e pensou, convicto “É essa, vou tentar já!”. Segurou a chave firme entre o polegar e o indicador de sua mão e apertou as outras chaves com a palma encurvada de sorte que não fizessem barulho na hora em que virasse o chaveiro sobre a fechadura. Ela entrou com facilidade, mas ao forçar sentiu que ela não girava. “Será que é a chave errada ou só está engripada? Forçou mais um pouco, fazendo um pequeno barulho que o deixou apreensivo. Parou tudo e tentou escutar através da porta. “Nenhum sinal de gente acordada. Bom.”. Então Giorno com cuidado selecionou a chave seguinte e inseriu-a na fechadura com a mesma facilidade que a anterior, mas da mesma forma não girava sobre seu eixo. 
Ele começou a ficar um tanto nervoso e acabou por se descuidar, forçando um pouco mais ruidosamente dessa vez. Mas daí seu instinto retornou-lhe a noção do perigo e ele parou mais uma vez, tentando escutar algum ruído. Da porta da direita que dava para o apartamento contíguo ao que tentava abrir escutou uma respiração pesada, algo como se fosse uma espécie de ronco, e prevenindo um deslize qualquer acautelou-se respirando fundo para se concentrar. Quando foi tatear o molho para tentar pegar a próxima chave da sequência, Giorno acabou deixando que ele escorregasse de sua mão e caísse ruidosamente no chão, e ele sem querer deixou escapar um palavrão: “merda!”. Abaixou-se e pegou o chaveiro, quando escutou atrás da porta que tentava abrir: “tem alguém aí?”

Giorno sentiu o suor gelar por sobre sua nuca, e suas mãos começaram a tremer. Levantou-se

vagarosamente e tentou não entrar em pânico. Então escutou novamente a voz feminina através da porta, “Anselmo, é você? Esqueceu de novo a chave do seu apartamento? Porque está escuro aí fora, o sensor queimou de novo? Espere um pouquinho!”. Giorno escutou uma chave girando naquela fechadura e a porta se abriu, revelando uma mulher alta e esguia, com longos cabelos escuros caindo sobre um roupão de cetim cor de ouro envelhecido. Era a Srta. Cera.

Giorno agiu o mais rápido que pôde. Com a mão esquerda tapou a boca da mulher e com a outra empurrou-lhe violentamente apartamento adentro, tendo o cuidado de fechar a porta com o pé direito. Cera estava totalmente fora de si, e não teve tempo sequer de reagir. O homem conduziu-a até seu quarto e então jogou-a violentamente na cama. Com o peso de seu corpo ele a imobilizou e então arrancou a fronha do travesseiro que estava mais a mão e enfio o máximo de pano que conseguiu na boca da mulher. Ela ainda estava tentando entender o que acontecia quando Giorno arrancou-lhe o roupão, revelando uma camisola branca transparente sem mais nada por baixo. Ao ver seus negros pêlos pubianos logo abaixo do tecido, Giorno ficou excitado e sentiu um tremor de êxtase ao reparar de soslaio o seu reflexo no espelho da pentedeira: um elegante homem de terno risca de giz com o cabelo fixado no mais perfeito alinhamento.
Ele se fixou em sua imagem como se fosse uma espécie de espectador da cena, vendo ele próprio abrindo a braguilha de sua calça e então subindo a camisola até acima dos peitos rijos da Srta Cera. Aquele corpo branco contrastava de tal forma com seus cabelos negros, seus grandes olhos escuros, seus longos cílios, que ele teve que tomar cuidado para não entrar em êxtase antes do ato premeditado. Pensou consigo mesmo: quem vê essa mulher toda arrumada em seu tailleur de trabalho, toda maquiada em formal profissionalismo, não sabe o que ela esconde na simplicidade íntima do seu lar.

Giorno mal se conteve ao beijar sofregamente a boca de Cera, seus ombros, e então sugar com voracidade seu mamilo direito. Cera tentava se libertar de todas as maneiras possíveis, mas o homem era forte demais para suas frágeis tentativas de luta. Giorno então abriu as pernas da mulher com os seus joelhos e tentou forçar a entrada em sua vagina. Ela se debateu até esgotar suas forças, e quando sentiu que o homem conseguiu realizar seu intento em penetrá-la, deixou de resistir até que ele terminasse seu ato sujo. Seu ódio deu lugar à um vazio interior, e ela pareceu apagar-se em um estado catatônico, paralizada em sua frustração de não ter mais como reagir. 
Então, como que regida por um instinto animal, ela começou a mexer-se junto com ele de forma ritmada, como se a busca de seu próprio prazer fosse uma forma de afrontar a brutalidade daquele homem que usurpava sua liberdade. Sentiu então seu clitóris entumescido e com uma lubrificação que a muito tempo não sentia, e num gesto inesperado para Giorno virou ambos os corpos de tal forma que ela ficasse em cima, controlando a cópula ela mesma. Cavalgando como uma amazona, ela esfregou-se com tanto vigor sobre o membro ereto do invasor, gozando com um grito abafado pelo tecido em sua boca, pouco antes dele ejacular tão potentemente que quase o fizera perder os sentidos.
Ela se deitou ao seu lado, aniquilada por toda aquela ação, e por alguns minutos ambos ficaram parados olhando para o teto, respirando ofegantes com seus corações palpitando. Então fez-se o silêncio, e ambos se encararam, pensando em seus próximos movimentos. Ela fez menção de pular da cama, mas Giorno foi mais rápido e ficou na frente da porta do quarto, impedindo sua passagem. 
    Enquando ela arrancou a fronha de sua boca, aproveitou para sorrateiramente pegar o pesado abajur e arremessar num tiro certo bem no meio de fronte do homem, que cambaleou para trás alguns passos, sentindo o sangue quente escorrer-lhe na face. Então a mulher correu feito uma desesperada tentando chegar até a porta do apartamento, mas foi segurada pelo braço e arremessada com força num movimento de gancho por Giorno. Ela caiu sobre a quina da mesa de centro da sala, quebrando seu pescoço de forma violenta. Giorno escutou o barulho dos ossos da Srta. Cera se partindo e logo após o barulho do vidro da mesa, formando no chão um mosaico de cacos encharcados de escarlate.

Giorno passava a mão em sua cabeça latejante enquanto observava o corpo inerte que antes fora seu objeto do desejo, pensando em como gostaria de poder possuí-la mais uma vez. Estava envolto nesse pensamento hediondo quando escutou a porta se abrir, o que fez com que ele se vira-se num sobressalto.
“Giorno, o que está fazendo? Eu escutei o barulho do seu estardalhaço lá do meu apartamento dois andares acima!”. E então a mulher com um robe rosa e pantufas de pelúcia passou rapidamente por ele e foi em direção da mulher caída, tomando-lhe o pulso.
“Ela está morta. Sorte a sua que o vizinho de porta toma remédio tarja preta para dormir.”
Giorno sentou-se no sofá ainda com a mão na cabeça e então disse:
“Marta, pode ver se encontra um analgésico no banheiro, por gentileza?”.
“É claro, querido.”, disse Marta, pondo-se em pé. Fez menção de ir até o banheiro mas estacou levantando o indicador em atitude pensativa. “Se bem que acho que você não vai precisar.”
Giorno fez uma cara interrogativa que repentinamente tornou-se de espanto ao ver que Marta estava com uma arma na mão apontada pra ele.
“Adeus querido!”, disse Marta, antes de acertar um tiro certeiro em seu olho direito, logo abaixo do seu machucado na testa.
Marta então limpou o revólver com um paninho que trouxera no seu bolso e então cuidadosamente pôs o revolver na mão da Srta Cera, apertando mais uma vez o gatilho dando um tiro a esmo na direção de Giorno.
Então calmamente saiu do apartamento e subiu pela escada de incêndio até o seu andar, preparou um chá na cozinha e deu um telefonema, para depois retornar ao quarto em que estava dormindo com seu velho marido.
“Marta, o que aconteceu? Escutei um barulhão agora. Vem da rua ou é daqui do prédio?”, disse Gervásio, apreensivo.
“Volte a dormir Gervásio, eu já liguei pra polícia, eles se encarregarão do ocorrido.”, disse amavelmente Marta.
“Você é uma síndica muito dedicada, meu amor”, disse Gervásío, dando um beijo de boa-noite na esposa.
Dez minutos se passaram, e o silêncio da noite foi quebrada por uma sirene bem longínqua.
“Gervásio, está acordado querido?”. Disse Marta, coberta até a cabeça com seu edredonzinho cheirando a lavanda.
“Ãh, o que meu amor?”, disse Gervásio meio embriagado de sono.
“Nos livramos do porteiro e da sub-síndica.”, cuspiu Marta.

“Que bom.”, respondeu Gervásio, já envolto no mundo dos sonhos.